O mercado imobiliário português continua a apresentar um cenário paradoxal no início de 2026: os preços das casas mantêm uma forte trajetória de crescimento, enquanto o número de transações volta a recuar. Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística – INE revelam que os preços da habitação aumentaram 17,8% no primeiro trimestre do ano, embora este seja o primeiro sinal de desaceleração desde o segundo trimestre de 2024.
A subida dos preços continua a ser particularmente expressiva no segmento das habitações existentes, que registaram uma valorização homóloga de 19,7%, bastante acima dos 12,6% observados nas habitações novas.
Em cadeia, ou seja, comparando com o trimestre anterior, os preços cresceram 3,8%, mantendo um ritmo elevado de valorização, ainda que inferior ao registado nos períodos mais recentes.
Apesar desta dinâmica, a actividade do mercado perdeu intensidade. Entre Janeiro e Março foram realizadas 37.745 transacções de habitações, menos 8,7% do que no mesmo período de 2025, assinalando o segundo trimestre consecutivo de quebra nas vendas.
As habitações existentes continuaram a representar a maior fatia do mercado, concentrando mais de 80% das operações realizadas, embora também neste segmento se tenha registado uma diminuição de 8%. Já as habitações novas registaram uma queda ainda mais acentuada, de 11,6%.
Ainda assim, a redução do número de negócios não se traduziu numa quebra do valor movimentado pelo mercado. Pelo contrário, o montante total das transacções aumentou 3,2%, atingindo os 9,9 mil milhões de euros.
O crescimento foi impulsionado sobretudo pelo segmento das habitações existentes, cujo valor transaccionado aumentou 6,9%, para 7,5 mil milhões de euros. Em sentido inverso, as habitações novas registaram uma redução de 6,8%, fixando-se nos 2,4 mil milhões de euros.
As famílias mantêm-se como os principais protagonistas do mercado, sendo responsáveis por 87% das aquisições realizadas durante o período em análise.
Já a procura internacional continua a perder peso. As compras efetuadas por residentes fiscais no estrangeiro diminuíram 15,6% em termos homólogos, prolongando uma tendência de abrandamento que já se vinha verificando nos últimos trimestres.
A nível regional, todas as regiões do país registaram uma redução do número de transacções. A Região Autónoma da Madeira apresentou a quebra mais significativa, com uma descida de 25,6%, seguida pelos Açores (-11,4%) e pelo Algarve (-10,7%).
Contudo, a diminuição da actividade não impediu a continuação da valorização do mercado em várias regiões. Península de Setúbal, Oeste e Vale do Tejo, Alentejo e Norte destacaram-se pelos aumentos do valor das transacções, registando crescimentos acima da média nacional.
Os números do primeiro trimestre evidenciam um mercado imobiliário que continua a ser marcado por uma forte escassez de oferta e por uma pressão significativa sobre os preços, mesmo num contexto de menor número de negócios.
A desaceleração agora observada nos preços poderá representar um primeiro sinal de normalização, mas o mercado permanece longe de um verdadeiro equilíbrio entre oferta e procura. A persistência da valorização das habitações existentes e a redução da actividade transacional mostram que a acessibilidade à habitação continua a ser um dos principais desafios do sector em Portugal.